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terça-feira, 3 de maio de 2011

Um novo melhor amigo

Nunca reparei nos sons. Nunca até o ano passado.

Virei recepcionista em uma escola de música e aí, claro, como as outras 90% das pessoas vai se perguntar que instrumento sei tocar, mas não hesitarei em dizer mais uma vez: até nas palmas eu erro o ritmo.

Foi no silêncio daquela recepção e na harmonia das notas aprendi a ouvir. Foram dias sentada naquela cadeira e me empolgava com os alunos novos, que apareciam com as cordas novinhas e a afinação do violão não durava dois dias.

É sentir, sempre a emoção de aprender o primeiro acorde, o primeiro ritmo. É Fazer uma amizade. É com ele que você vai chorar, que vai cantar para seu amor, que vai festejar ao som de uma música alegre. É com ele que você vai brigar e vai colocar a culpa nele em algum momento, falar que ele é o errado.

Pouco tempo depois, você olhará para ele e vai admitir que a culpa é sua. A falta de conhecimento é sua e, para não te deixar para baixo, ele estará melhor do que nunca e vocês festejarão, mais uma vez.

No tempo que trabalhei na escola aprendi a ouvir. Naquele tempo aprendi a falar. Aprendi que não é apenas o cachorro o melhor amigo do homem, o instrumento musical também tem esse papel.

Agora olhe para o seu primeiro violão, o mais barato, o mais detonado, o mais amado.

Aquele é teu bom e velho amigo, que ouviu tantos palavrões, foi colocado de lado algumas vezes, mas aguarda ansioso por suas mãos.

O retorno

De repente ela voltou.
Feliz.
Letra maiúscula e ponto final.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Perguntas

Queria que não existisse despedidas definitivas. Assim manteria viva a da esperança do reencontro. Mas até que ponto essa ilusão é válida? Questionou ela ao ver aquele álbum surrado pelo tempo.

E se não fossem as fotos, lembrar-me-ia de todos com tanta veracidade? E se ninguém tiver fotos minhas? Alguém nesse mundo sentirá saudades de mim? E a saudade tem validade?

As dúvidas não cessaram, mas problema maior foi a saudade que as respostas deixaram às perguntas.




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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tempo

Era terça-feira, ele tinha 80 anos, as mãos já estavam bem enrugadas e dominadas pelas manchas. Coisas da idade.

Entrou na sala, abriu o caderno e tentou achar uma posição confortável para o lápis em sua mão. Estava ansioso pela primeira aula, afinal esperara 80 anos por aquele momento. Linhas mais largas e outras bem estreitas. Abrira seu primeiro caderno de caligrafia.

A primeira lição não poderia ser outra: a primeira letra do alfabeto, gordinha e impecavelmente redonda, um grande desafio àquelas mãos trêmulas. Era destro, mas a esquerda auxiliava o trabalho segurando o caderno com tanta intensidade que parecia que alguém logo ia roubá-lo.

A procura pelo “a” perfeito durou uma tarde, mas nas próximas aulas já demonstrava maior facilidade na “dança das mãos”, como ele chamava carinhosamente o movimento de escrever. Apesar da demora para adquirir o nível mínimo de habilidade e conhecimento que precisava, o tempo foi justo e aprendeu o necessário para surpreender Maria, sua esposa.

Na manhã do seu aniversário de casamento falou à Maria que tinha uma surpresa, mas para isso a esperaria sob árvore da praça central, às 15h. A árvore marcava o primeiro encontro e a primeira vez que ele pegou em suas mãos. Foi sob a mesma árvore que passaram as longas tardes de domingo, quando levavam os filhos ainda pequenos para tomar sol.

Maria chegou pontualmente às 15h e lá estava ele, com as mãos sujas. Ele saiu de frente da árvore. Lá deixou três letras dentro de um coração: P e M.

E foi sob a mesma árvore que as lágrimas escorreram pelo rosto de Maria de uma forma jamais vista por Paulo.



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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Utopia

As empresas resolveram trabalhar meio-período naquela semana. Estavam todos mobilizados. Cada um sabia na ponta da língua a vida, o histórico, o objetivo e a linha de todos eles.

Dessa vez não teria como errarmos. Sim, o Brasil vai ganhar só tem o que ganhar. Todos unidos, pensando no bem do nosso país, pensando como seria valorosa a conquista dessa vitória. Pelas ruas ouvia-se em uníssono: Vai Brasil! Chegou a nossa hora.

Era até emocionante de ver. Era inacreditável.

Época de eleição nunca foi assim. Então eu acordei com o barulho da maldita vuvuzela. Ainda é copa, o povo não tem tempo para pensar que estamos beirando a falência do nosso país. É ano de eleição e o temor toma conta de mim. Só de mim?


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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Chuva

Era apenas uma gotinha
que escorregava pela janela em ritmo de valsa,
perdida naquele cenário cinza e triste.

Era apenas uma gotinha
que antes de cair
espiou o casal de namorados.

Era apenas uma gotinha
à procura de uma janela interessante para visitar

Era apenas uma gotinha
num mundo inteiro para mergulhar.

Era apenas uma gotinha
que apaixonada pelo Rio de Janeiro resolveu fazer uma festa
uma gotinha popular, que convidou todo o mundo para participar.

Era apenas uma gotinha
que se sentiu culpada pelos danos causados aos fluminenses
e chorou, até não poder mais.




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sexta-feira, 26 de março de 2010

Sons

Tum, tum, tum.
Ouviu Suzana, que cheia de medo foi abrir a porta de sua casa.

Era o coração de Maciel, que entoava uma música incrivelmente mais linda que “I don't want to miss a thing”.


Trimmmm.
Ouviu Suzana, que jogou o despertador contra a parede.

Era o sonho mais lindo, que acabava ao som irritante do despertador.




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quinta-feira, 25 de março de 2010

Empoeirado

Abandonado.
Rejeitado.
Reclamava o hibiscus depois de 5 meses que viu o último ponto final.




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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Maldito Murphy

Corria, corria, corria... O motorista do ônibus sequer notou que o desespero de Antonio, que estava atrasado para sua entrevista de emprego, a primeira, desde sua demissão em 2007.
Antônio acordou às 7h. Ele é vendedor, tem boa lábia, boa aparência, mas nenhuma sorte, ou, para os céticos, ele é muito atrapalhado. Tomou banho, barbeou-se, ligou o rádio, tomou café. Dia de sorte, pensou ele.
Sua camisa estava amassada, passou a camisa, costurou a calça e preparou o café. Passou manteiga no pão. O pão caiu, com a manteiga para baixo, na sua única camisa limpa. Antonio soltou um palavrão, daqueles bem feios.
Lei de Murphy: A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do carpete. No caso, da única camisa limpa.

Passou um pano e conseguiu dar um jeito na meleca. Terminou de comer. Estava adiantado, resolveu dar uma lida no currículo, lembrar de coisas interessantes para falar, pensou em habilidades que não tinha, mas que contaria pontos positivos na escolha do entrevistador.
- Falar inglês é sempre bom. É isso.
Treinou um “yes I speak English”. Estava preparado. Levantou do sofá e sentiu um frio nas nádegas. Tinha sentado sobre o pano que limpou a manteiga da camisa, sua calça ficou cheia de gordura. Nada escandaloso, porém perceptível.
Foi até o armário pegar outro pano, bateu o dedinho do pé na quina da mesa. E de lá soltou outro palavrão. Mais cabeludo que o primeiro.
Lei de Murphy: Acontecimentos infelizes sempre ocorrem em série.
Lei de Murphy: Mesmo o objeto mais inanimado tem movimento suficiente para ficar na sua frente e provocar uma canelada. O caso, uma dedada.

Já estava se atrasando.
Lei de Murphy: Tudo leva mais tempo do que todo o tempo que você tem disponível.

Saiu correndo para o ponto, viu o ônibus apontando na esquina. Correu mais, e mais, entretanto, o motorista sequer notou que o desespero de Antonio, que estava atrasado para sua entrevista de emprego, a primeira, desde sua demissão em 2007.
Lei de Murphy: Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.

Antonio chegou atrasado na entrevista. Não foi desta vez. Soltou um palavrão pior ainda.




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segunda-feira, 18 de maio de 2009

O amor transforma

Deixei o celular para despertar às 6h45 (sempre deixo), mas voltei a dormir e o seu despertou às 7h, como programado todos os dias, até pensei que era mentira que você não estava ao meu lado. Virei para o seu lado, à minha esquerda, mas estava tudo arrumado, nesta manhã não fiquei te admirando, enquanto tentava levantar da cama. Não ouvi o "bom dia" mais preguiçoso e dengoso, aquele que faz cerca de um ano que me transforma lentamente. Nesta manhã você não estava lá.

Com o tempo nos acostumamos com cada detalhe, que a mera falta de uma manha desperta a saudade mais verdadeira e profunda que já senti. Nesta manhã não fiz café, acho que ele tem mais sabor com você, quando você senta à mesa comigo e começamos a prever o resto do dia, dizendo que temos reunião, ou tantas outras coisas para fazer. Nesta manhã não precisei lembrá-lo que a noite teremos aula, nem chamei a sua atenção lembrando que você ainda adia a academia.

Esta manhã senti saudade.


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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Viagem de trem

De acordo com as estimativas da OMS, a esquizofrenia atinge cerca de 24 milhões de pessoas no mundo todo.

Eu passeava feliz, estava em um trem com a minha família, quando a velocidade em que os vagões percorriam sobre os trilhos começou a me assustar. Aquele momento foi decisivo.

Todos começaram a saltar do trem, mas minha irmã ficou. Eu não poderia deixá-la naquele vagão. Foi quando a agarrei e tentaria saltar com ela. Foi um ato de coragem e eu conquistei a vitória.

Lembro que era loira e aquele acidente destruiu o bairro de uma bela cidade. Eu ainda não tinha filhos, mas logo os viria Caroline, Albert e Stéphanie, nesta ordem. Sou uma atriz, me chamo Grace Kelly, sou a favorita de Alfred Hitchcock. Só não entendo porque as pessoas duvidam da minha história, não acreditam em mim.

Quando cheguei aqui contava sobre a perseguição que sofria, certamente um dia essas pessoas irão me encontrar e certamente não haverá quem duvide de mim. Ouço gritos que me apavoram, pioram toda a noite, certamente após a enfermeira me envenenar. Quando estou bem ela vem com remédios e mais remédios e meu medo aparece. Não quero falar com mais ninguém.

O acidente aconteceu na década de 50 e hoje passa na minha memória como um filme antigo. Você acredita em mim?


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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Café

Ele apareceu sisudo na cafeteria (uma das melhores do Mercado Municipal de Curitiba), pediu o de sempre. Poucos minutos depois seu expresso estava pronto e lia o jornal do dia.

A capa anunciava a visita do presidente da República, Lula, e sua esposa Marisa ao vice-presidente José de Alencar, que retirou alguns tumores do abdome em janeiro e se recuperava no Hospital Sírio-Libanês, que fica em São Paulo. Enquanto o presidente e seu vice riam felizes na capa, muitas pessoas ainda dormiam em suas casas, algumas estavam no mesmo café que aquele senhor, outras não estavam. No verão as pessoas enchem as praias todo o final de semana, uns tentavam curar o porre de sábado com a última coca da geladeira, alguns casais acordavam e outros estavam acordados há horas, pois o filho recém-nascido desperta exatamente às 5h, inclusive no domingo.

Enquanto tudo isso acontecia o presidente da República e o então recuperado vice-presidente riam na capa dos jornais de domingo. Tudo parecia estar bem. Só saberemos como as coisas realmente estão quando explodirem nas capas de segunda-feira, onde até os jornais deixam de ser leves e se tornam reais.



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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Climas ou Curitibas

É bonito ver a terra coberta de dourado. É sempre assim no verão, tudo é enriquecido pela cor e calor do sol. Até mesmo o cinza do asfalto permite que o dourado ganhe destaque.

Com o sol as roupas mais coloridas e frescas saem do armário, tudo fica mais quente. As pessoas ficam mais quentes, se aproximam mais, organizam mais eventos, conversam mais com os antigos amigos, bebem mais, dançam mais. No verão as pessoas ficam mais felizes. Elas parecem mais felizes.

No verão todo o mundo reclama que está muito quente, que chove, que transpira. Além de mais felizes as pessoas reclamam mais.

No inverno o cinza do céu domina todas as cores. O inverno é mais romântico, os jantares são melhores, as pessoas mais elegantes. Elas parecem mais românticas.

E aí reclamam do frio, que sempre está muito frio, que ninguém abre as janelas do ônibus, que precisam colocar muitas camadas de roupa. Além de mais românticas as pessoas reclamam mais.

No inverno as pessoas adoecem mais e reclamam, com todo o exagero possível, que não aguentam ficar tantas vezes doente. Os ossos dos idosos doem mais, de acordo com a intensidade do frio. Quanto mais frio, mais dor.

O mundo pode acabar com sol, chuva, frio, calor e independente da maneira que acabe, sempre terá um bom curitibano reclamando do clima, já que esse é o único assunto por aqui e confesso que o costume me faz pensar que não existe outra maneira de se aproximar de estranhos. Será que há?


Foto: Lida Rose

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Correntezas no olhar

Falar sobre a infância não é fácil para muitos. Em alguns é manifestado o profundo suspiros e em outros tudo isso aparece acompanhado de olhos cheios de lágrimas. Foi o que aconteceu com o seu Manoel.

O conheci em uma manhã em que o calor do sol ardia sobre a pele. Seu Manoel tem os olhos mais azuis que já vi, a história mais emocionante que já ouvi e os conselhos mais inesperados que recebi.

Trabalhador desde criança, gostava de se aventurar nadando em rios "quando chovia forte", enfatizou demonstrando sua bravura com os benefícios da natureza. A chuva forte era quesito para seu tempo de lazer, nesta época tinha entre 6 e 10 anos.

“Brigava com a morte diariamente”, diz seu Manoel emendando um longo suspiro, que não deixou dúvida sobre a saudade do passado. Com 62 anos lembra de todos os detalhes daquelas tardes e ao citar isso seus olhos pareciam um rio quando chove. Mas que não transborda.

Para segurar um pouco a emoção colocava a mão sobre o rosto, me olhava por entre os dedos, desviava o olhar para o teto e continuava a contar sua vida. Quando não conseguiu mais segurar, secou a lágrima que escorreu do seu olho direito respirou fundo mais uma vez e disse: "sabe, além de tudo sou conselheiro, dou conselhos às pessoas e o meu conselho para você é que coma. Coma mesmo, não passe fome como essas modelos".

Seu Manoel soltou uma longa risada e agradeceu pela "gostosa conversa".





(entre tantas de pessoas que converso na minha profissão, o seu Manoel foi uma das mais fantásticas)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Trim.... Trim... Trim....

Estava novamente no escritório, me surpreendi que as coisas estavam acontecendo com tanta frequência e em um curto espaço de tempo. O telefone nunca tocava. Com a tecnologia as pessoas deixaram de perder tempo tentando encontrar conhecidos nos telefones fixos. O celular virou moda e sinônimo de facilidade para a localização.

Mas nesta manhã foi diferente, o telefone não parava de tocar. Quando eu atendia a ligação ninguém respondia. Em outras épocas abriria a primeira gaveta, acenderia um cigarro e olharia para o telefone, como se estivesse conversando com ele. Acabaria o cigarro, com ar de superioridade ao aparelho, bateria as cinzas no cinzeiro de madeira e o apagaria, dando por encerrado o caso.

É interessante que essas coisas acontecem em manhãs como hoje, céu nublado, frio, silêncio, escritório escuro, pessoa sozinha.

São esses o ingredientes de um típico filme de terror. Faltou eu ser loira, não muito inteligente e sair correndo de uma serra elétrica, morrer na metade do filme, sempre um pouco nua, para dar o toque sensual à morte.

Faltou muita coisa para se tornar um filme de terror. Claro que fiquei feliz com isso, o que me direcionou a ligar o som, enquanto me dedicava à minha pesquisa de graduação. O que há de mais aterrorizante nisso tudo é a pesquisa, não o telefone tocando.

Pensar que é feriado local, que tem muitos amigos no Largo da Ordem, saboreando cervejas e conversando sobre a vida, sem se preocupar com nada. Apenas que esta semana será mais curta e que o sábado chegará mais rápido.

No MP3 selecionei a banda Fiest, que é nova aos meus ouvidos e ainda não defini o seu estilo. O grupo apresenta bons arranjos, às vezes remetem aos anos 70' e 80', mas confesso que ainda não consegui identicar com clareza. Caracterizo a banda com uma grande variação de estilos, que encantam cada momento. Espero logo poder trazer mais informações sobre a Fiest.

E o dia continuou cinzento. Minha pesquisa não acabou.

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domingo, 7 de setembro de 2008

Saudade do que não foi vivido

Mais uma vez é o dia de lembrar o aniversário da sua ausência. Esses dias eu estive pensando que nunca sentimos aquela brisa de outono, com as folhas caindo e as crianças correndo por todos os lados.

Hoje é mais um dia para eu me perguntar porque o mundo foi tão injusto com nós dois. Hoje é mais um sete de setembro que a chuva daixará um clima triste, para contribuir com o sentimento de fraquesa que ainda sinto parar encarar a fatalidade daquele sete de setembro. Hoje é mais um dia para eu lembrar da violência do mundo que te tirou de mim.

Normalmente vejos algumas fotos suas, normalmente eu fico chateada e tenho cada dia mais o desejo de ter te conhecido melhor, antes daquele sete de setembro.

Me disseram que pareço em muito com você. Quando minha mãe me observa solta um suspiro de saudades suas. Não a condeno, sou a lembrança viva do amor que um dia existiu e que certamente, mesmo com todos os erros eu admiro.

Para Arsênio Lopes Sant' Anna, in memorian.

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sábado, 6 de setembro de 2008

O inevitável quase evitado

A solidão e aquele barulho horrível que dominava o ambiente mal iluminado do escritório. O rádio ligado anunciava que as Cataratas do Iguaçú está entre as sete maravilhas do mundo. Mas o vento sombrio, do meio da manhã que entrava pela janela e mexia levemente a cortina, não deixava a beleza da notícia encantar a minha manhã.

O barulho não parava, não me deixava em paz. Enquanto escrevia, tentava me distrair, mas a cada instante ele se tornava mais intenso. Medo.

Eu comecei a temer os acontecimentos seguintes, estava sozinha, não sabia ao certo se eu clamava desesperadamente pela ajuda de alguém. Era uma sexta-feira, não era 13, então me senti um pouco mais confortada. Não se engane meu amigo, não sou supersticiosa, mas nessas horas rezamos para todos os santos e acreditamos que Deus nos livrará de todo o mal se perdirmos perdão pelas coisas erradas. Desespero.

Aquilo que eu evitara a manhã inteira não poderia mais ser evitado, fui contra meus próprios princípios. Levantei-me, lentamente eu caminhei até a cristaleira, estava a cinco passos de distância. Na verdade é um móvel antigo, que serve para guardar muitas coisas, inclusive alguns alimentos. Abri a porta, eu a vi. Erro.

O pior é você ver. Quando os seu olhos não se deparam com a realizade visual dos objetos você ainda consegue manter uma certa calma. Eu a vi. Medo, desespero, erro.

O barulho aumentava, a cada segundo que se passava, eu tentei evitar, mas não consegui, sou fraca, eu admito! Não consegui vencer esta batalha e acabei com o pacote de bolachas.

Minha barriga parou de roncar.

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sábado, 30 de agosto de 2008

A solução é esquecer o que é limite

No infinitivo o verbo se apresenta na sua forma mais clara. O simples fato de viver e não deixar o verbo estacionar no terrível gerúndio (vivendo) ou no particípio (vivido), que parecem tão desprezíveis para a o significado da palavra, torna o pensamento no infinitivo mais atraente.

Mas afinal, o que é viver? Certamente cada um, com sua subjetividade, encontra o próprio significado. Pode ser escalar os Alpes Suíços com roupas especiais, e depois da aventura, chegar em um belo chalé e tomar um saboroso capuccino, acender a lareira e ficar à toa.

Há quem prefira estabeleber metas, conhecer três lugares diferentes por ano, ir à praia ou talvez não fazer nada, para não tirar a vida dos eixos. Há diversas maneiras de aproveitar o verbo.

Mas será que o viver é diretamento ligado à aventura e à tranquilidade? Não vivamos nós, no imperativo negativo, sem a adrenalina que faz as bochechas ficarem vermelhas. Não vermelhas do frio ou do calor, mas das sensações que nos cercam.

Por isso, posso afirmar que nós vivamos, no presente do subjuntivo, seja com o chalé confortável, com a bela paisagem dos Alpes ou a conjugação do próprio verbo. Talvez seja mais simples que tudo isso, basta esquecer o significado da palavra limite.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Quando tudo começou

Não sei ao certo qual foi o dia e a hora, mas eu lembro quando fui apresentada à letra "a", a professora Adriana disse: a, de anel... Não sei quantos anos eu tinha, mas foi amor a primeira vista. Tenho dúvida se foi "u" de urso ou de uva.

Achei aquilo tão incrível. Minha mãe não tinha o costume de perguntar o que eu tinha aprendido na escola, e ela não tem idéia de como eu queria falar. Eu tirava notas boas, sempre tirei (até eu conhecer a faculdade) e lembro que todo o final do ano, quando ela chegava em casa para almoçar eu fazia uma ceninha, me debruçava na cama e muito mal eu simulava um choro, chegava a soluçar, ela me perguntava o que tinha acontecido e eu dizia rindo:

- Reprovei de ano!

Ela certamente nunca nem pensou em acreditar e apesar de quase não comparecer nas reuniões com os pais, ela sabia como eu ia bem. Lembro uma vez, que a lição de casa era achar umas 10 palavras com as letras x, ch, ss, sc, mas eu gostava mostrar dedicação aos professores e disse para a minha mãe um número absurdo, coisa de umas 50 palavras. E eu as procurei.

Não lembro ao certo quando foi a primeira leitura que fiz, mas foi de um livro que eu gosto muito, "O Pequeno Príncipe", foi uma farmacêutica o emprestou à minha mãe.

O mundo dos livros apareceu na minha vida surpreendemente, com um dos melhores livros que li em toda a minha vida. Depois de "O Pequeno Príncipe" apareceram muitos outros. Muitos mesmo! Acho que o segundo era de uma comunidade de parafusos e a base educacional deste livro era sobre preconceito.

Quando eu estava na 8ª série ganhei meu primeiro concurso literário. Lembro que na sexta-feira a secretária do "sempre" vereador Jair César ligou na minha casa, disse que no dia seguinte haveria a entrega dos prêmios, e mais uns blá, blá, blás. Eu como uma escritora orgulhosa, mas na verdade desacreditada não compareci. Na segunda-feira eu cheguei na escola e todos me contaram.

Entrei em um mundo construído por muitas letras que parece não ter fim.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Cachoeira

É engraçado que com o tempo sentimos a obrigação de sempre postar alguma coisa no blog. Antes da existência do Hibiscus tive anos de atraso devido a minha profunda preguiça de selecionar meu Layout. Preguiça da melhor qualidade e intensidade.

Passei anos escrevendo coisas em papéis que eu nunca mais encontrarei. Pode parecer estranho, mas era interessante pegar o ônibus no domingo de tarde, normalmente meu destino era o MON (Museu Oscar Niemeyer), ou o Largo da Ordem mesmo. Na verdade acho que era mais o Largo da Ordem do que o próprio museu que me atraía para o centro de Curitiba nas tardes cinzentas de domingo.

O fato é que eu normalmente carrego comigo algum papel e material para escrever, normalmente uma caneta. Perdi dezenas de textos, bons ou não, eu não sei, não deu tempo de ninguém lê-los, mas me lembro bem do dia da "Cachoeira".

Eu estava sentada (gosto de ficar no fundo do ônibus, assim consigo ver todas as pessoas que entram), e ela entrou.

- Cachoeira! Cachoeira!

Ela olhava com fervorosidade, buscava a atenção de alguém. Meu pensamento se uniu a todos os outros, pensamos juntos! Ela só poderia ser louca, concluiu meu pensamento que interagia com os outros através de olhares acusadores e medíocres.

Ela sentou na minha frente, ao lado de um senhor, olhou para ele e disse:

-Cachoeira, esse vai para cachoeira?

Sem dizer uma paravra e quase sem se mexer, aquele senhor vergonhosamente fez com a cabeça que não. Mas ela estava muito agitada, não sosegaria com nenhuma resposta morna. Ela esperava a convicção de alguém, a certeza de que chegaria até a Cachoeira que tanto procurava.

Ela se levantou, caminhou entres os bancos continuou a pronunciar:
- Cachoeira! Cachoeira!

Descontente saltou na próxima estação tubo. Os olhares deixaram de ser medíocres, em poucos segundos meu pensamento não interagia com nenhum outro.